Estudo revela que humanos pré-históricos usavam noz de betel como estimulante
Um novo estudo sugere que os humanos que viveram há 25 mil anos na Indonésia utilizavam a noz de betel como um estimulante, muito antes do que se pensava. A pesquisa revela marcas curiosas nos dentes de dois forrageiros pré-agriculturais de Sulawesi, evidenciando um hábito que pode ter começado como uma forma de automedicação.
Marcas nos dentes e hábitos de consumo
Pesquisadores analisaram os restos dentais de dois indivíduos de diferentes períodos, datados entre 25 e 6 mil anos atrás. As marcas nos dentes apresentavam sulcos profundos e arredondados, sugerindo que essas pessoas frequentemente mastigavam um objeto duro e redondo, identificado como a noz de betel, a semente da palmeira areca.
Estima-se que cerca de 10% da população mundial ainda consuma a noz de betel por suas propriedades estimulantes. O estudo, publicado na revista Science Advances, aponta que o uso dessa noz remonta a um período muito anterior ao que se conhecia, que era de 3.500 a 3.000 anos atrás.
Impactos na saúde dental
As análises revelaram que o desgaste dental era severo, com raízes expostas e sinais de doença periodontal. Em um dos casos, o desgaste pode ter atingido a polpa dentária, causando dor intensa, dificuldades para se alimentar e infecções crônicas.
Além disso, uma análise biomolecular detectou arecolina, o principal composto ativo da noz de betel, nos restos dentais analisados. Experimentos adicionais mostraram que a sucção da noz poderia liberar compostos biologicamente ativos sem a necessidade de preparo, como ocorre no uso moderno da betel.
Possível alívio para dores dentárias
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que o hábito de mastigar a noz de betel poderia ter começado como uma maneira de aliviar dores dentárias. A arecolina possui propriedades analgésicas, o que levanta a possibilidade de que o consumo da noz aliviasse a dor existente.
Entretanto, o uso contínuo da noz pode ter gerado um ciclo vicioso: alívio temporário seguido de agravamento das condições dentárias. O professor Adam Brumm, líder da pesquisa, ressaltou que, embora essa prática pudesse inicialmente tratar a dor, os efeitos a longo prazo provocaram problemas dentários mais graves.
Considerações finais sobre a pesquisa
Embora os achados sejam intrigantes, eles se baseiam em evidências de apenas dois indivíduos. Embora o desgaste característico e as análises químicas sustentem a teoria do uso da noz de betel, não é possível afirmar com certeza o motivo que levou esses indivíduos a adotarem esse hábito.
Além disso, o consumo moderno da betel é diferente da prática de sucção proposta no estudo. A noz de areca é classificada como carcinogênica e seu uso está associado a riscos aumentados de câncer bucal, conforme indicado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer. A pesquisa abre novas discussões sobre a relação entre hábitos antigos e a saúde dental contemporânea.